domingo, 14 de novembro de 2010

Branquitude acrítica e crítica: A supremacia racial e o branco anti-racista

Lourenço Cardoso

Na literatura científica de maneira geral as pesquisas sobre a branquitude têm se restringido em investigar a branquitude crítica, deixando de lado a branquitude acrítica. A branquitude crítica refere-se ao indivíduo ou grupo branco que desaprovam publicamente o racismo. Enquanto que a branquitude acrítica refere-se a branquitude individual ou coletiva que sustenta o argumento em prol da superioridade racial branca. Este artigo possui a preocupação em salientar a importância de distinguirmos a branquitude crítica e a branquitude acrítica. O que pode parecer apenas uma simples distinção pode nos levar a analisar com maior atenção e profundidade o crescimento e fortalecimento de grupos neonazistas e membros da Ku Klux Klan: grupos que representam dois significativos exemplos da expressão da branquitude acrítica.

Confira no link:
http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=3235857

segunda-feira, 12 de abril de 2010

endoidar com segurança

eu gosto é
dos…
maus
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esse que escuta
como tu
foste estúpido!

daquele=============
que jamais
teve a coragem de ousar,
ou brincar

pessoa essa que vive
a delinear
o melhor momento para endoidar
com segurança


Lourenço Cardoso

Os contra-racistas versus os contra-racistas e a ausência do racista

Lourenço Cardoso
(Texto escrito em 2006 publicando In: PPPCor)

No Brasil, o projeto de lei de Cotas (PL 73/1999) e o Estatuto da Igualdade Racial (PL 3.198/2000) que será submetido a uma decisão final no Congresso Nacional suscitou o manifesto de “intelectuais” e militantes “a favor” e “contra” as políticas de ação afirmativa (políticas de AA).
Esse debate possui um aspecto curioso. Os dois manifestos se colocam contra o racismo, portanto, reconhecem a existência do racismo, e se posicionam como anti-racistas implicitamente e explicitamente.
É curioso que o debate sobre as políticas de ação afirmativa, ocorra somente entre as partes que são anti-racistas. Se ambos manifestos são anti-racistas, podemos concluir que eles apesar das posições antagônicas possuem o mesmo objetivo, o combate ao racismo. Aliás, esse é também um dos objetivos daqueles que argumentam “a favor” da aplicação dessas políticas.
Nesse debate sobre políticas públicas encontramos a presença do racismo. Ele é o ponto de convergência entre os dois manifestos. A divergência é a maneira de combatê-lo ao utilizar ou não utilizar as políticas de ação afirmativa. Um manifesto é “contra”, e o outro “a favor”, os dois manifestos foram suficientemente argumentados, e compete ao leitor tirar as suas próprias conclusões. Eu particularmente, posiciono-me “a favor” desse tipo de políticas.
Se existe um consenso entre os dois manifestos sobre a existência do racismo. Do mesmo modo, percebe-se nos dois manifestos a ausência de se problematizar o racista. Onde se encontram os racistas? Qual a posição dos racistas? Há racismos sem racistas?[1] O posicionamento contra o racismo elimina os racistas?
Se eu dissesse, que ser contra a política de ação afirmativa é a posição de um racista, acho que estaria sendo injusto, reducionista e insensato, por isso não digo. No entanto, não podemos fechar os olhos para os racistas brasileiros.
Acredito que esses racistas são provavelmente contra as políticas públicas que privilegiem os negros, eles são provavelmente contra discriminações, “discriminação positiva”, discriminação “a favor” de negros e “indígenas”. Esses racistas personagens ausentes desses dois manifestos, talvez, ao defenderem a idéia de que são contra as discriminações, alargam-na. Talvez argumentem que são contra todos os tipos de discriminações.
Sugiro que esses racistas são contra as políticas de ação afirmativa porque se é difícil encontrar no Brasil alguém que se declare racista, pior, será encontrar um racista a favor de políticas públicas destinadas aos não-brancos.
Talvez o racista, esse “ilustre ser ausente” desses dois manifestos, dessa discussão sobre o racismo, esteja presente em ambos os manifestos. Ao meu ver, o mais hipócrita, ou mais maquiavélico talvez seja o racista presente no manifesto contra as políticas de ação afirmativa.
Caro leitores, dito isso, de maneira nenhuma, pretendo insinuar que todos aqueles que são contra essas políticas são racistas, nada disso! De maneira nenhuma pretendo insinuar que os racistas escreveram um manifesto, que fez com que os anti-racistas reagissem. Nesse ponto, vale uma nota, geralmente, o negro anti-racista é reduzido a um sujeito que somente reage ao racismo branco, em outras palavras, esse negro seria incapaz de pensar e fazer qualquer outra coisa, que não fosse reagir ao racismo branco.
Caro leitores, assim como dizia, nem todos aqueles que são contra as políticas de AA são racistas, talvez, existam racistas a favor dessas políticas pelas suas próprias razões.
O estranho é que nesse debate contra o racismo suscitado pelas políticas de ação afirmativa, seja realizado somente entre as partes que reconhecem o racismo e se colocam explicitamente ou implicitamente contra o racismo. Estranha-me também o fato de que no debate contra o racismo, o racista seja um ilustre sujeito ausente. Há racismos sem racistas? Há racistas sem racismos? Porque se referir ao racismo e se calar quanto aos racistas?
Esse debate suscitado por esses dois manifestos sugere, que discutamos os estudos, ou realizemos novos estudos sobre o suposto racismo institucional praticado e reproduzido pelas universidades. Esse debate suscita pensarmos em maneiras de combater os racismos e os racistas. A política de ação afirmativa não seria em princípio uma proposta nesse sentido? Não seria uma alternativa para combater o racismo institucional acadêmico, entre outros racismos?
Parece óbvio, que podemos pensar, e debater outras alternativas, talvez pouquíssimas pessoas sejam contra debater alternativas, talvez, pouquíssimas pessoas sejam contra a melhora da qualidade do ensino público fundamental e médio. E desde quando as políticas de ação afirmativa são um impedimento para a melhoria da qualidade do ensino básico?
Melhorar a qualidade do ensino médio e fundamental é dever de qualquer governo, e uns dos nossos direitos fundamentais. Se a qualidade do ensino não vem ocorrendo as políticas de ação afirmativa não têm responsabilidades a esse respeito. Qual a contradição que existe entre a melhora do ensino público fundamental e médio e ao mesmo tempo aplicar as essas políticas? Alguém pode me explicar?
Se de um lado pensarmos que nesse debate sobre as políticas de ação afirmativa re-alimentado por esses dois manifestos, o que inquieta é a ausência da problematização sobre o racista, e a naturalidade com que não é percebida, ou referida essa ausência. Esse debate configurado como tal com essa ausência, penso que, já começa sob os alicerces da hipocrisia.
Essa ausência de se problematizar o racista é um dos indicativos dessa hipocrisia. E se o debate é feito sob os alicerces da hipocrisia, inevitavelmente corremos o risco de caminhar para manutenção do status quo. Manutenção do status quo que convém aos racistas, diga-se de passagem.
Por outro lado, podemos pensar que não é tão estranho assim: um debate contra o racismo realizado somente entre anti-racistas. Um debate com a ausência da reflexão sobre os privilégios do racista numa sociedade racista, afinal, ainda se escuta muito a frase: “aqui ninguém é racista!” E se ninguém é racista no Brasil, parece evidente que o debate sobre racismos seja restrito somente aos anti-racistas; anti-racistas esses com as melhores intenções.

[1] Santos, B. S. 2002. Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. Revista Crítica de Ciências Sociais, 63: 237-280.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A branquitude ressentida e Barack Obama

Barack Obama foi o primeiro presidente negro eleito nos Estados Unidos. Ele em sua campanha procurou desvincular sua imagem da idéia de raça. No jogo das identidades, apelou para sua identidade nacional, distanciando-se da identidade racial. O senador argumentou que era mestiço: filho de mãe branca americana e pai negro africano. A idéia implícita que o senador procurou passar durante o desenrolar da disputa eleitoral foi que a raça não era importante. Ele enquanto candidato ambicionou tanto os votos dos brancos, quanto dos negros, assim como todos os políticos, procurou angariar votos sem distinção.
Será que a raça não é realmente importante? Se a raça não fosse relevante por que o senador Barack Obama teve de enfatizar esse recado de maneira direta e inequívoca, e também muitas vezes de forma implícita? Talvez mais adequado seria o senador sustentar que a idéia de raça não deveria ser considerada relevante, ou seja, no sentido de ser um fator de vantagem e desvantagem.
Entre os negros norte-americanos a maioria votou em Barack Obama; negros que são pessoas distintas, inclusive pertencentes ao Partido Republicano, que disputou com o Partido Democrata do presidente eleito, que também teve a maioria dos votos dos latinos, isto é, voto étnico. Portanto o resultado apontado na apuração indicou o dado racial e étnico, como elemento significativo que influenciou a escolha.
Em sua campanha, quando o Barack Obama “falou”, ou se “calou” estrategicamente sobre sua pertença racial, sua intenção seria justamente de não perder votos porque é negro. Todavia, aceitou de bom grado os votos recebidos por causa de sua pertença racial. O presidente Barack Obama foi considerado negro aos olhos da opinião pública mundial, especialmente por causa das imagens e notícias veiculadas pela mídia, apesar do Srº Obama ter se esquivado dessa identidade racial, durante o decorrer de sua campanha.
A branquitude - que seria a identidade racial branca[1] -, sempre se vangloriou de sua condição de poder imanentemente superior, neste momento, com a vitória de Barack Obama a branquitude começa a tomar também para si o argumento de que a raça não é importante. Porém, se trata de uma branquitude ressentida que passa a sustentar esse discurso, porque não suporta ver, ou pior, ser obrigada a obedecer um negro que se encontra num nível hierárquico superior, daquele que ele historicamente sempre ocupou.
Por isso, neste momento, ouviremos muitas vezes da “boca” da branquitude o discurso: “de que o negro não seria negro”, “assim como branco não seria branco”, “mesmo porque a raça não existe”. Contudo no íntimo a branquitude ressentida, simplesmente não admite estar num patamar inferior ao negro. Até o presente momento na história norte-americana, nenhum presidente necessitou deparar-se com a idéia de raça presente e persistente a todo instante em sua campanha de forma direta ou indireta. Logo, o argumento de que a raça não é importante possui intenções diferentes, que dependerá muito da pessoa, ou grupo que o professa.
Nesta perspectiva da abolição do conceito de raça, destaca-se o intelectual Paul Gilroy[2]. Esse autor propõe o abandono da utilização política e analítica da idéia de raça, porque esse seria o melhor caminho para o fim do racismo, levando-se em consideração que a raça não deixa de ser uma idéia que o opressor inventou.
No caso da branquitude ressentida, a idéia de que a raça não existe seria defendida por causa da sensação de incômodo do branco, que entra em crise quando se depara com um negro num cargo de maior poder e prestígio, que é a posição que o branco sempre ocupou. A convincente vitória eleitoral de Barack Obama expõe essa branquitude ressentida. Nos Estados Unidos ela poderá ser encontrada expressa nos discursos dos brancos eleitores, ou simpatizantes do Partido Republicano que apoiaram o senador branco John MacCain.
O presidente “negro” (ou talvez “mestiço”), o Srº Barack Obama também expõe a branquitude revoltada, expressa na branquitude acrítica[3]. Essa branquitude acrítica refere-se aos brancos que não desaprovam o racismo publicamente como, por exemplo, os membros dos grupos neonazistas e da Ku, Klux, Klan, que já ameaçam assassinar Barack Obama. Simplesmente porque ele seria negro, ou, talvez, mestiço que possui uma parte negra, que seria para eles inaceitável. Mesmo porque eles seriam “brancos puros”, por isso, únicos cidadãos autenticamente estadunidenses.

[1] Acerca da branquitude confira: CARDOSO, Lourenço. O branco “invisível”: um estudo sobre a emergência da branquitude nas pesquisas sobre as relações raciais no Brasil (Período: 1957 – 2007). (Dissertação de mestrado), Faculdade de Economia e Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, 2008. Também CARONE, Iray e BENTO, Maria Aparecida da Silva (org.) (2002), Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Vozes.

[2] Acerca do fim da idéia de raça confira: GILROY, Paul (1998), “Race ends here”, Abingdon, Oxford: Ethnic and racial studies, vol. XXI, nº 5, 838-847.

[3] Acerca da branquitude acritíca confira: CARDOSO, 2008: 178-180.

Lourenço Cardoso

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Obama encontra finalmente o seu ritmo de governo na presidência

07/04/2010

Der  Spiegel
Klaus Brinkbäumer

Barack Obama desceu do seu pedestal e começou a governar com uma mistura de idealismo e pragmatismo. Os Estados Unidos perderam um pregador, mas o que não falta nesse país amargamente dividido são pregadores. Finalmente, 14 meses após a posse de Obama, os Estados Unidos contam com o presidente reformista do qual o país necessita.

Passados 14 meses desde a posse de Obama, os norte-americanos finalmente têm um presidente. Eles perderam Santo Barack, o pregador mundial.

A ascensão dele foi ofuscante, e isso era parte do problema. Essa ascensão foi tão irreal quanto a chegada de um salvador. Foi uma ingenuidade, mas Obama fez uma campanha eleitoral ingênua: nós podemos mudar, eu darei a vocês um governo que cura.

Essa abordagem logo fracassou, porque o mundo real jamais é ingênuo.

Agora a esquerda nos Estados Unidos diz que Obama traiu não só os ideais dela, mas os do próprio presidente, afirmam que ele cedeu demais e foi muito brando, acusam-no de ser um professor na Casa Branca, um homem impotente, um Jimmy Carter negro. Já a direita vocifera que ele traiu os princípios norte-americanos e o vê como um comunista e um esbanjador do dinheiro do contribuinte. Isso o enfraqueceu. O governo israelense está se preparando para ignorar o presidente problemático até que os norte-americanos escolham um outro candidato para ocupar a presidência. O presidente afegão Hamid Karzai permite que o seu convidado de honra – o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad – fale mal dos Estados Unidos enquanto soldados norte-americanos protegem Cabul. Mas isso também provavelmente passará: o mundo real não é uma caricatura.

Estas são as semanas do retorno de Obama. Após a sua aparição e crucificação, nós estamos presenciando um processo de secularização. A Casa Branca está se reajustando e encontrando o seu equilíbrio. A reforma do sistema de saúde, finalmente aprovada, deverá fornecer cobertura a 32 milhões de cidadãos e representa uma vitória de Obama sobre o establishment de Washington que há anos é marcado pela paralisia congressual.

Obama deu continuidade a sua tendência a preencher cargos importantes por decreto presidencial. A seguir houve o avanço nas negociações para desarmamento com a Rússia, e depois disso ele seguiu para o Afeganistão. O que estamos presenciando é um início atrasado de ação por parte do presidente.

Um país agressivo e dividido

Todo mundo sabe que existem dois Estados Unidos. Franklin Delano Roosevelt era detestado por milhões de pessoas, Kennedy era odiado pela direita, Nixon pela esquerda, Clinton pela direita, Bush pela esquerda. Os Estados Unidos são um país agressivo. Às vezes isso faz dele um país dinâmico, outras vezes um país destrutivo.

As diferenças entre norte-americanos e europeus são maiores do que muitos europeus pensam. Para os norte-americanos conservadores, o consenso europeu de que um governo forte tem que ajudar os fracos é um ataque à liberdade. Para a direita norte-americana, “solidariedade” e “social” são palavras do vocabulário de provocadores.

Obama tentou modificar esse clima fazendo pregações sobre dever e responsabilidade, e obteve o resultado oposto: paranoia. Teorias conspiratórias e exageros pairavam sobre as entrevistas televisivas do presidente. E além disso houve o movimento Tea Party, e todas as advertências quanto a imigrantes, moradores das grandes cidades, intelectuais, pesquisadores do clima, ativistas da campanha contra armas, políticos, mulheres e negros – em suma, tudo o que ameaçaria os valores norte-americanos básicos.

Os Estados Unidos são um país complicado que passa por uma onda de mudança demográfica que o tornará ainda mais complicado. Nas próximas eleições, os Estados Unidos branco ver-se-á praticamente impossibilitado de vencer os negros e os imigrantes hispânicos caso esses dois blocos juntem forças. A classe média branca teme essa mudança e está nervosa. Senadores são alvos de cusparadas, Sarah Palin aconselha os cidadãos a “recarregarem”, as milícias se armam. O jornal “The New York Times” falou de uma “imitação em pequena escala da Noite dos Cristais”.

A profundeza do abismo não tem precedentes, e também é sem precedentes o fato de a direita estadunidense não ver mais Obama como o seu presidente. “Esse sujeito negro é o seu presidente” - sentenças desse tipo são uma novidade.

É claro que é possível governar em tal clima, mas não será um percurso suave. Um dos maiores erros de Obama foi acreditar na sua visão messiânica de uma presidência que transcenderia as linhas partidárias. Agora ele está governando com paixão, estrategicamente e com cabeça fria.

A democracia não exige harmonia, ela não exige sequer consenso. Tudo o que ela necessita é de uma maioria. Obama desceu do seu pedestal e ao que parece pretende seguir implementando reformas nos quase três anos de presidência que ainda tem pela frente. Um governo meio à esquerda, com um pouco de idealismo e uma dose de pragmatismo, se necessário.

Tradução: UOL

(Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/04/07/obama-encontra-finalmente-o-seu-ritmo-de-governo-na-presidencia.jhtm)

domingo, 28 de março de 2010

Câmara dos EUA aprova histórica reforma da saúde proposta por Barack Obama


Obama abraça seu vice, Joe Biden, após aprovação. Foto: Jason Reed/Reuters

WASHINGTON - A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos deu aprovação final para a reforma no sistema de saúde do país no domingo, expandindo a cobertura para quase todos os norte-americanos e dando ao presidente Barack Obama uma vitória histórica. Em uma votação de 219 votos favoráveis e 212 contrários, os democratas da Câmara aprovaram as mudanças mais significativas nas políticas de saúde em quatro décadas. O projeto, já aprovado pelo Senado, vai agora para a sanção de Obama.

A Câmara de Representantes dos EUA aprovou neste domingo a histórica reforma do sistema de saúde do país, por 219 votos a favor - três mais do que o necessário - a 212 contra. O projeto de lei corresponde ao que o Senado já tinha aprovado em dezembro do ano passado. O presidente Barack Obama deve sancioná-lo ainda nesta semana. Junto aos 178 congressistas republicanos na Câmara, um total de 34 democratas votou "não" à medida.

A reforma ampliará a cobertura para 32 milhões de norte-americanos, expandindo o plano de saúde do governo para os pobres, impondo novas taxas aos mais ricos e proibindo práticas de seguradoras como se recusar a atender pessoas com problemas médicos já existentes. A votação põe fim a um ano de batalhas políticas com os republicanos, que consumiu o Congresso dos EUA e abalou as taxas de aprovação do presidente.

Obama celebrou a vitória em um discurso na Casa Branca. "Nesta noite, num momento em que especialistas diziam que não era mais possível, nos elevamos sobre o peso da nossa política", disse o presidente. "Essa lei não consertará tudo que afeta nosso sistema de saúde, mas certamente nos levará decisivamente na direção correta. É com isso que a mudança se parece", disse.

Os democratas na Câmara comemoraram quando o número de votos chegou a 216, total necessário para a aprovação, e gritaram: "Yes, we can" ("Sim, podemos"), slogan da campanha que elegeu Obama. Todos os republicanos se opuseram ao projeto e 34 democratas se juntaram a eles ao votarem contra a reforma.

Horas antes, os democratas tinham conseguido uma primeira vitória na votação sobre a reforma da saúde, ao aprovar um voto de procedimento por 224 votos a favor frente a 206 contra. Do lado de fora do Capitólio, manifestantes contra a reforma presentes ao longo do dia todo pediam para "jogar no lixo" a medida.

Os democratas asseguraram os 216 votos necessários para aprovar a reforma depois que o líder de um grupo de congressistas antiaborto que se opunham à medida, Bart Stupak, anunciou que tinha chegado a um acordo de última hora com a Casa Branca e os líderes de seu partido. Stupak reivindicava garantias de que a reforma não permitiria o uso de fundos federais para a prática de abortos.

Mediante o acordo anunciado hoje, o presidente Barack Obama emitirá uma ordem executiva que deixará claro que não se poderão usar esses fundos para as interrupções voluntárias da gravidez, salvo casos extremos.

(Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,congresso-dos-eua-aprova-reforma-historica-da-saude,527409,0.htm)

domingo, 21 de março de 2010

Malcolm X: O negro mais furioso de todos os furiosos fez muitas pessoas mudarem o pensamento a respeito de si mesmos

Lourenço Cardoso
(texto escrito em 1999 publicado no site Mundo Negro)












Malcolm X nasceu em Omaha, no estado de Nebraska, Estados Unidos. Quando estava com seis anos, seu pai Earl Little, um dedicado trabalhador para UNIA (Associação para Melhoria Universal do Negro) foi violentamente assassinado. Após brutal espancamento, foi jogado na linha do trem com corpo quase partido em dois, ainda não morreu ali, agonizou mais algumas horas.
Louise Little, mãe de Malcolm com 34 anos, assumiu o sustento dos seus oito filhos. Ela possuía pele clara e arrumava empregos domésticos. Os empregos duravam até descobrirem que ela era negra. Louise também passou a receber dois cheques, um pensão de viúva, outro da assistência social. Este dinheiro não era suficiente, e com seu desemprego freqüente tornou-se uma família, praticamente, de indigentes.
As assistentes sociais do governo atormentavam Louise, com a intenção de encaminhar seus filhos para lares adotivos, como ela se opunha, começaram insinuar, a tramar sua insanidade. Louise passou por intensas pressões que a levou a um colapso nervoso. Ensejo que o Estado aguardava para trancafiá-la em um hospital de doentes mentais.
Malcolm já havia sido adotado e, em 1937, viu sua família ser destruída. Os dois irmãos mais velhos, Wilfred e Hilda foram deixados à própria sorte, Philbert foi levado para casa da família em Lansing, Reginald e Wesley foram viver com a família Willians, Yvone e Robert com a família McGuire.

A universidade das ruas

Quando terminou a oitava série, Malcolm foi morar em Boston na casa de sua meia irmã Ella. Fez amizade com Shorty, esticou os cabelos, passou a beber, fumar, cigarros, baseados, jogar cartas, jogo dos números e aprendeu a dançar muito bem. Sua melhor parceira era Laura, uma singela negra que morava com a avó e sonhava forma-se na universidade. Ele a namorou, levou-a aos bailes, porém numa destas festas, trocou-a por uma mulher branca, uma mulher loura, chamada Sophia. Laura, no futuro próximo, cairia na prostituição. Malcolm confessou: “Umas das vergonhas que tenho carregado é o destino de Laura..., tê-la tratado da maneira como tratei por causa de uma mulher branca foi um golpe forte demais”.
Malcolm entre outros empregos, a exemplo de engraxate, trabalhou na ferrovia, depois resolveu se mudar para o Harlem. Alugou um apartamento onde várias das inquilinas eram prostitutas. Sophia ia de Boston para o Harlem visitá-lo. Algum tempo depois, casou-se e manteve-o como amante.
No Harlem, Malcolm também morou na casa de Sammy, um amigo cafetão, e entrou para o “mundo do crime”, tornou-se traficante. Aproveitou o bilhete que ganhou, quando trabalhou na ferrovia, e foi traficar nos trens. Estava cada dia mais difícil vender nas ruas, a polícia estava “fechando o cerco”, os artistas que conhecia – seus clientes – adoraram a idéia. Naquele tempo, temia três coisas: cadeia, emprego e o exército para se livrar do serviço militar, fingiu-se de louco.
Depois do término das viagens traficando, perdeu a conta dos golpes que deu no Harlem. Não podia mais vender maconha, a polícia já o conhecia. Passou a praticar seus primeiros assaltos, e se preparava para esses trabalhos com drogas mais fortes. Era viciado no jogo dos números, quando ganhava, convidava Sophia para passar alguns dias em Nova York. Sua vida marginal levou-o a se meter em tantas encrencas no Harlem que acabou ficando num “beco sem saída”, estava “jurado de morte”. Sammy ligou para seu velho amigo Shorty vir buscá-lo, levá-lo de volta para Boston.
Em Boston, foi morar com Shorty em seu apartamento. Quase todos os dias assim que o amigo saia para trabalhar, como saxofonista, Sophia encontrava-se com Malcolm, e ele arrancava-lhe todo o dinheiro. O marido de Sophia havia arrumado emprego de vendedor, e viajava constantemente.
Para sair da inatividade Malcolm propôs a Shorty que assaltassem casas. Formaram um grupo com a participação de Rudy, amigo de Shorty, Sophia e sua irmã. Sophia havia apresentado sua irmã para Shorty e os dois passaram a namorar. O primeiro trabalho foi um sucesso, e depois vieram outros e outros...
No entanto, “todo ladrão espera o dia em que será apanhado”. Chegou o dia inevitável de Malcolm, Shorty e Sophia e sua irmã, somente Rudy conseguiu escapar. As duas mulheres tiveram penas reduzidas pegaram de um a cinco anos. Malcolm disse: “Apesar de serem ladras eram brancas”. Quanto aos dois negros, seu próprio advogado de defesa confessou: “Vocês não deveriam ter se metido com mulheres brancas”. Shorty pegou de oito a dez anos, e Malcolm dez anos.

A importância da leitura

Na prisão por causa de sua atitude rebelde e anti-religiosa, Malcolm ficou conhecido como Satã. Reginald escreveu-lhe uma carta dizendo que descobrira a verdadeira religião do homem preto. Ele pertencia a Nação do Islã, Malcolm respondeu a carta com palavrões. Recebeu outra, escrito: “Não coma carne de porco e pare de fumar que eu lhe mostrarei como sair da prisão”. Estas palavras ficaram em sua cabeça.
Reginald sabia como funcionava a mente marginal do irmão, havia passado uma temporada com ele no Harlem. Quando foi visitá-lo Malcolm estava ansioso para saber como não comendo carne de porco livrar-se-ia da prisão. Afinal qual golpe havia tramado, e passou a ouvir Reginald falar sobre Elijah Muhammad. Seu irmão contou que: Alá viera para a América e se apresentou a um homem chamado Elijah – um homem preto – afirmando que o homem branco é o demônio.
A mente de Malcolm, involuntariamente, recordou todos os homens brancos que conheceu. Ao ir embora Reginald deixou seu irmão pensando, com seus primeiros pensamentos sérios. Malcolm pensou nos brancos que tinham internado sua mãe, os que tinham matado seu pai, os brancos que haviam destruído sua família, em seu professor branco que assegurou que: “é absurda a idéia um negro pensar em ser advogado”. Apesar de suas notas altas, Malcolm deveria ambicionar ser carpinteiro.
Quando Reginald voltou, viu o efeito que suas palavras haviam provocado em seu irmão, e falou mais sobre o demônio que é o homem branco. Seus outros irmãos também passaram a escrever, a falar sobre Honrado Elijah Muhammad. Todos recomendaram seus ensinamentos que classificavam como o verdadeiro conhecimento do homem preto. Malcolm titubeou, todavia, acabou-se se convertendo ao islã, tornou-se muçulmano negro.
Graças aos esforços de Ella, Malcolm conseguiu ser transferido para uma prisão colônia de Nolfork que era de reabilitação profissional, muito melhor do que as outras por onde havia passado, e a biblioteca era um de seus elementos principais. Para responder as cartas, e se corresponder com Elijah Muhammad começou a ler muitos livros, tornou-se um leitor voraz, em seus anos de prisão, leu desde os clássicos aos mais populares.
Sobre os filósofos fez o seguinte comentário: “Conheço todos, não respeito nenhum”, disse também: “A prisão depois da universidade é o melhor lugar para uma pessoa ir, se ela estiver motivada, pode mudar sua vida”; “as pessoas não compreendem como toda a vida de um homem pode ser mudada por um único livro”. Além da leitura, copiou um dicionário inteiro para compreender melhor os livros.
Em 1952, Malcolm foi libertado e saiu em caravana para visitar o Templo Número Dois, assim eram chamadas as mesquitas. Ele finalmente ia ouvir Elijah Muhammad que ao final de sua fala chamou Malcolm, pediu que ficasse em pé, e diante dos olhares de uns duzentos muçulmanos, contou uma parábola a seu respeito.
A partir de então, Malcolm passou a colaborar com Templo Número Um, ele participava da “pescaria” que era atrair os jovens, e se saia muito bem, afinal, conhecia a “linguagem dos guetos”. Recrutava nos bares, nos salões de sinuca e esquinas dos guetos, o Templo Número Um, de Detroit, em três meses triplicou o número de fiéis. Malcolm já havia recebido da Nação do Islã o seu “X” que significava seu verdadeiro nome de família africana que deus lhe revelaria. Para ele o “X” substituía o Little, o pequeno, herança escravocrata.
No verão de 1953, Malcolm X foi nomeado ministro assistente do Templo Número Um e passou a freqüentar a casa de Elijah Muhammad, era tratado como filho. Malcolm devido sua fidelidade, inteligência, oratória, cultura, personalidade..., obteve um desempenho extraordinário na Nasção do Islã que resultou numa ascensão meteórica. Em curto intervalo de tempo tornou-se o principal ministro de Muhammad, levando-o a ser transferido para o templo de Nova York – o mais importante.
Meio a sua vida agitada, Malcolm passou a reparar em uma moça chamada Betty, o interesse era recíproco, consultou Muhammad e casou em janeiro de 1958. Mal casou, e via-se Malcolm, em toda parte, trabalhando pelo crescimento da Nação do Islã. Em suas polêmicas diárias o que mais o irritava, eram certos líderes negros os quais acusava que: “suas organizações tinham corpo preto com cabeça branca”.

X e King

Em 1963, Kennet B. Clark entrevistou, em separado, para um programa de televisão: James Baldwin, Martin Luther King e Malcolm X. Esta entrevista originou o livro “O Protesto negro” nesta publicação encontra-se algumas divergências entre “X” e “King”.

Malcolm X critica a política de não-violência:
“Todo o negro que ensina o outro negro oferecer a outra face, desarma-o. Todo negro que ensina o outro a oferecer a outra face diante do ataque rouba-lhe o direito divino, seu direito moral, seu direito natural, o direito natural à defesa. Todos os seres de natureza têm esse direito e têm razão de exercê-lo. Homens como King têm por profissão ensinar os negros a ‘não reagir’. Ele não lhe diz para ‘não lutarem entre si’. ‘Não reajam contra o homem branco’ é a essência de sua pregação, pois adeptos de Martin Luther King matar-se-ão entre si, mas nada farão em defesa própria contra os ataques do homem branco”.

Martin Luther King defende as sua idéias:
“Não vejo o amor como uma inconseqüência emocional neste contexto. Não vejo como fraqueza, mas como uma força que se organiza em poderosa ação direta. É isto que venho tentando ensinar no sul: que não nos enganamos numa luta para cruzar os braços, há uma grande diferença entre a não-resistência a maldade e a resistência não-violenta. A não resistência conduz a um estado de passividade e uma complacência mórbida, ao passo que a resistência não-violenta significa resistir decidida e determinadamente. Parece que algumas críticas, e críticos da não-violência ainda não compreenderam o seu sentido vigoroso, confundindo não resistência com resistência não violenta”.

Elogio e traição

Malcolm fundou um jornal chamado “Muhammad Fala” que levou revistas mensais a darem reportagens de capa sobre os muçulmanos negros. Não demorou muito para que Malcolm fosse convidado para participar de mesas redondas de rádio, televisão e universidades, entre elas Havard, para defender a Nação do Islã, enfrentando intelectuais negros e brancos.
Elijah Muhammad disse para Malcolm: “Quero que você se torne muito conhecido, pois você se tornando conhecido, também me tornará conhecido”. Malcolm tornou-se realmente conhecido, tornou-se uma personalidade estadunidense que muitas vezes chamou a atenção do cenário mundial, mais do que Martin Luther King e o presidente John F. Kennedy.
O seu destaque gerou ciúmes no próprio Elijah que não possuía a coragem e perspicácia de Malcolm para discutir, por exemplo, com professores universitários. A intensa exposição e repercussão da figura de Malcolm X contribuíram para alimentar entre enciumados muçulmanos negros que ele tentaria tomar o controle da Nação do Islã.
Duas antigas secretárias de Muhammad entraram com processo de paternidade. Malcolm ao conversar com elas descobriu que enquanto Elijah Muhammad o elogiava pela frente, tentava destruí-lo pelas costas, e aguardava o momento oportuno para afastá-lo. A morte de John Kennedy e a declaração polêmica de Malcolm a respeito foram o ensejo.
Ele que tanto se dedicou, e com certeza foi uns dos – senão o principal responsável – pelo crescimento da Nação do Islã foi afastado. Malcolm em seu trabalho árduo, praticamente, não adquiriu bens materiais. Bens que poderiam gerar algum conforto à sua família, no caso de sua falta, porém sempre acreditou que se alguma fatalidade lhe ocorresse os muçulmanos negros cuidariam de sua família.
Malcolm ficou sabendo do seu banimento através da imprensa. Sofreu humilhações públicas com manchetes como esta: “Malcolm silenciado”. Os muçulmanos negros também conspiraram para que ele fosse considerado traidor, a punição para a traição é o ostracismo e a morte. A ironia é que Malcolm sempre foi fiel a Muhammad, falava sempre em nome de Muhammad, renunciava a própria personalidade em favor de Elijah Muhammad.

Meca

Patrocinado por Ella, Malcolm viajou para Meca com o objetivo de conhecer melhor o islã. Agora admitia que Elijah Muhammad havia deturpado esta religião nos Estados Unidos. Ao voltar de sua viagem, estava para iniciar uma nova fase em sua vida. Ele que teve tantas reviravoltas em sua agitada história.

Em uma entrevista coletiva, perguntaram-lhe:
“Você ainda acredita que os brancos são demônios?”
Respondeu:
“Os brancos são seres humanos na medida que isto for confirmado em suas atitudes em relação aos negros”.

Movido por suas novas idéias, Malcolm fundou a Organização da Unidade Afro-Americana: Grupo não religioso e não sectário – criado para unir os afro-americanos –. No entanto, em 21 de fevereiro de 1965 na sede de sua organização, Malcolm recebeu 16 tiros calibre 38 e 45, a maioria deles atingiu o coração.
Malcolm foi assassinado – com apenas 39 anos – em frente de sua esposa Betty, que estava grávida, e de suas quatro filhas. Escreveu M.S. Handler: “Balas fatais acabaram com a carreira de Malcolm X antes que ele tivesse tempo para desenvolver suas novas idéias”

[...] pai Preto dizia/ todos os negros são alienados/ e eu sou o mais alienado/ de todos os alienados/ quando me atrevo/ em meus tiros/ há sempre dois pretos/ a revidar/ além dos dez brancos/ quando falta um “irmão”/ não desperdiço munição/ espero outro tio Tom/ o brancu disse/ vivemos numa democracia racial/ e alguns pretus que legal/ que alegria/ agora temos uma teoria/ pretos raço-democratas/ que morre/ que mata/ para não perder sua paz/ para se sentir parte/ de uma sociedade/ a qual nunca pertenceu/ Meu!/ se toca/ tocou-se o branco/ agora a briga é de/ brancu com branco/ e os negros tranqüilos/ preferem ficar com/ o velho conhecido/ gritam os Pretos/ os Movimentos Negros/ negras anti-raçodemocratas/ se auto-afirmando/ “Raça”/ “Raça”/ e vem o brancu/ distante da prática/ da “Raça”/ aquele que impõem/ a gramática/ dizendo/ que piada/ não existem “Raças”/ eliminou-se a/ “Raça”,/ e não o racista/ e quem são/ Pois não/ Os que não/ são raço-democratas/ Por enquanto nada/ Até outro branco teorizar/ todos sabem.../ mas é sempre bom lembrar/ a opinião que vale é branca/ cabe ao negro no máximo confirmar [...] (“Negros e brancos raço-democratas” poesia de Lourenço Cardoso).

No jornal “Folha de São Paulo”, em 22 de fevereiro de 1965, foi publicado em primeira página, com foto em destaque: “O líder racista Malcolm X foi assassinado”. Esta reportagem indica a repercussão da morte de Malcolm em nosso país, e o engano com que ainda – hoje em dia – atribuem a sua imagem.
Apesar dos quase “40 anos” de sua morte, sua influência segue forte, e sua história inspira e difunde luta por justiça. No Brasil, na atualidade, ouvimos rappers do Movimento HIP HOP, numa postura crítica, se autoproclamarem: “Cachorros loucos!” Não seria esta “titulação” re-elaboração da frase a qual muitos e o próprio Malcolm X se referia a si?: “Todos os negros são furiosos e eu sou o mais furioso de todos os furiosos”.


Referência bibliográfica:

CARDOSO, Lourenço. O Peso do mundo. São Paulo, edição do autor, 2002.
CLARK, Kenneth B. O Protesto negro James Baldwin, Malcolm X, Martin Luther King. Trad. Wladimir Gomide, Rio de Janeiro, Guanabara, Laemmert, 1963.
FOLHA DE SÃO PAULO, 22 de fevereiro de 1965.
HALEY, Alex. Autobiografia de Malcolm X. Com a colaboração de Alex Haley. Trad. A.B. Pinheiro de Lemos, 2a. Edição, Rio de Janeiro, Record, 1992.
MEALY, Rosemary. Fidel & Malcolm X: Lembranças de um encontro. Trad. Marta Cardoso Moreira Lima. Niterói, RJ, Casa Jorge Editorial, 1995.

erros e vícios

ela/ele, talvez
nem ela/nem ele
são anjos
/
monstros

santos que estupram anjos

são iguais e diferentes/
diferentes e iguais,
aquilo que nunca se diz:
não tratem os outros como
gostaria de ser tratado

ela/ele
estiveram sempre no lado certo:
leia-se errado

são versos contra a unanimidade
questões ao inquestionável
manual prático
do que
não se deve ser

o estatuto da não-lei
a gramática dos erros e dos vícios
padrão em pichar e derrubar
placas de hospitais

escrito:
não fume!
escrito:
silêncio!

ela/ele
escrevem asneiras,
tratados de asneiras,
doutoraram-se em
defendem o

sorriem feito Coringa
morrem e ressuscitam
feito
o super-mem
anti-Nietzsche
são amados pelo o mundo
e odiado pelos íntimos

reinventam a pólvora
e mutilam-se a si próprio
na escolha entre si
e os outros

fumam, bebem e filosofam
sobre os formatos da fumaça,
e o sobre o formato
das chamas
que antecedem a fumaça



Lourenço Cardoso

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

PARÓDIA: ÁGUAS DO TIETÊ

É o José, é o Gilberto é o fim da cidade
É o precatório, é o frango, é a condenação na justiça
É a catraca eletrônica, é a repressão ao camelô
É o Paulo, é o estupra mais não mata, é o vote em mim!

É promessa feita no calor da eleição
É o candidato ofendendo e depois convidando para a refeição
É povo votando, é o povo esquecido
É político bonito, fazendo feio, é o Fernando, é o Fernando
O Gilberto dormindo tranqüilo é um mistério profundo

É a greve dos perueiros, é a greve dos camelôs
É a greve do motorista e cobrador, é o mande-os embora

É a chuva, outra enchente
É o deus nos acuda! É outra família perdendo
os móveis comprados com muito suor

É o pivete cheirando cola na igreja

É o preto, é madrugada, é a polícia
É o pare, é a mão na cabeça, é o chute no “saco”
É escárnio, é a humilhação, é a carteira
do trabalhador jogada no chão,
é outro insulto, é outro tapa, é a senhora que passa,
é a mãe, é a mãe; é a rua deserta, é madrugada,
é a policia, é o preto, é a morte, é a morte!

Melhor sorte aos sobreviventes
Peça à deus para que seus filhos pareçam brancos, senão é má sorte, é a morte!

É a mão calejada, é o rosto enrugado,
é o bóia fria, é o sem bóia nenhuma
É a menina em Cuiú Cuiú, com a “placa de vende-se”

É o de paletó se aposentando, depois de oito anos
É o vagabundo se aposentando aos sessenta

É a máfia da saúde, é a máfia da previdência
É o ministro da justiça, líder do presidente cassado

É o Fernando viajando, e os caipiras pagando
É o presidente jantando na Europa, e o povo comendo calango

É a seca, é a sexta básica

O desvio do rio São Francisco
é promessa para a próxima eleição

É o Fernando, é o Antônio, é o Paulo, é a negociata

São as águas do Tietê arrasando a cidade
São promessas de doenças para a população

É a chuva, é a enchente, é a casa alagada
É o nordestino morrendo de sede e fome no sertão

É a ponte despencando, é o trânsito parado
É a poluição, é o aumento da tarifa, é o motorista assassinado
É o José mandando, é o Gilberto obedecendo

São as águas do Tietê arrasando a cidade
São promessas de doenças para a população

É o desastre da saúde, é o povo pagando
É a dengue, é a cólera, é a tuberculose, é a doença extinta

São as águas do Tietê arrasando a cidade
São promessas de doenças para a população




Lourenço Cardoso

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

eu A

chamar pra briga
aquele que se encontra
em franca
desvantagem

é de uma
brutal
covardia

é feito ratoeira
que espera
à espreita
aquele que classificou
como bicho




Lourenço Cardoso

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

pioridade

euquerosero...ôôôopiormergulharfundonapioridadeaperfeiçoaraminhamaldadeemorrerderirdos quetentaremmisalvar















Lourenço Cardoso
(publicado In: Vários Autores (2006). Oficina de Poesia: Revista da Palavra e da Imagem. Coimbra: Palimage Editores, p. 27 cf. http://www.palimage.pt/livro.php?livroid=rev07)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Era uma vez uma porta

(a)
sou porta de vidro

(b)
sou humano
cabeça de martelo
e coração de pedra

vou em sua direção!

(a)
por favor não venha não!

(b)
eu me vou!
eu me vou! eu me vou!

sou reflexo de ódio,
estou repleto de mim

(a)
já que é assim…
não venha com toda
essa pressa
eu enxergo de longe
eu lhe entrego a chave
eu lhe ofereço amor

(b)
lembrei qu í….
eú não conversô com porta!
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(a)
eu… e..u, e...

plas, plunt, plac, pluf, plun…

(b)
era uma vez uma porta

passei….
e pronto
plac, plax, plun

passei como quem nem viu!
não vi mesmo!!

ouvi

o estrondo
nada senti

(a)
sou estilhaço
ex-porta de vidro
não volte a passar por aqui
ser humano
cabeça de martelo,
coração de pedra

temo pelos seus pés descalços


Lourenço Cardoso
(publicado In: Vários Autores (2007). Oficina de Poesia: Revista da Palavra e da Imagem 10 Anos. Coimbra: Palimage Editores, p. 81)

domingo, 22 de novembro de 2009

Os palestinos tornando-se judeus e a omissão de Barack Obama

Lourenço Cardoso
(texto escrito em 2009 publicado In: http://www.portalafricas.com.br/?pg=ver_artigo&id=237)

O presidente eleito Barack Obama tem se omitido em comentar o massacre vivido pelo povo palestino no território da Faixa de Gaza praticado pelo Estado de Israel. Assim como esperado, o governo do presidente George W. Bush apoiou os israelenses.
Porém nos chama a atenção, a atitude omissa do Srº Barack Hussein Obama que somente se restringiu em pronunciar que está preocupado com os mortos palestinos e israelenses, no entanto, não pode tomar nenhuma outra atitude, porque ainda não assumiu a presidência dos Estados Unidos.
Os judeus, um grupo étnico, que enfrentaram a tentativa de extermínio contra seu povo durante a Segunda Guerra Mundial, ao conquistarem um Estado-nação no Oriente Médio passaram a praticar crimes semelhantes aos praticados pelos alemães nazistas contra eles. Isto é, o Estado de Israel está matando mulheres, crianças, adultos, idosos, sem distinção, sempre com o apoio irrestrito do Estado norte-americano e inércia da Comunidade Internacional.
Obviamente, muitos israelenses também estão sendo mortos pelos palestinos, apesar de ser numa proporção menor. Sem dúvida, é igualmente condenável essas mortes, portanto, considero deplorável tanto o assassinato de judeus, quanto de muçulmanos, que ocorre durante anos neste infindável conflito no Oriente Médio.
Porém, o Estado norte-americano parece somente se importar com a morte dos judeus e, lamentavelmente, o novo presidente eleito indica que seguirá essa mesma linha de política internacional. Apesar de assegurar que se preocupa também com os palestinos, sua atitude, nesses dias, parece indicar que não pretende contrariar os interesses dos judeus norte-americanos e israelenses. O Srº Barack Obama poderia ao menos mencionar se seu governo continuará apoiando o Estado de Israel incondicionalmente, assim como ocorreu na administração Bush.
Durante a campanha eleitoral, Barack Obama se autodefiniu como mestiço, ou “marrom”, estratégia política que não impediu que ele fosse classificado como negro aos olhos do seu próprio país e do cenário mundial. Isto significa que, o ilustre ex-senador de Illinois, para inúmeras pessoas, pertenceria a um grupo de “minoria”; grupo “oprimido”.
Apesar de sua pertença étnica e racial, refiro-me as essas categorias como construto social, Barack Obama tem sido negligente diante do genocídio praticado por dois grupos considerados étnicos em seu próprio país, ou seja, os judeus e os muçulmanos. Isto é, o conflito no Oriente Médio pode ser considerado, com base nas teorias raciais e étnicas de língua inglesa e portuguesa, um conflito de um grupo étnico contra outro grupo étnico; “um grupo de minoria” contra “outro grupo de minoria”.
Grupo considerado de “minoria” étnica e racial, sobretudo, em sociedades racistas de territórios que vivenciaram tanto a colonização anglo-saxônica, quanto a colonização ibérica, contexto em que o Brasil e os Estados Unidos se encaixam.
Grupos que são considerados minoria nacionais, mesmo quando é controverso a constatação que os não-brancos sejam minorias, pelo menos quantitativa, em sociedades como a brasileira e, talvez, a estadunidense, assim como aduz o intelectual Stuart Hall[1].
Certa vez, acerca do conflito no Oriente Médio, José Saramago comentou o seguinte: a guerra israelenses versus palestinos lembraria a luta bíblica de Golias versus Davi. Entretanto, o Golias contemporâneo seria os judeus e o Davi os palestinos.
Por outras palavras, os poderosos tanques de guerras israelenses lutam contra as “fundas”, ou seja, as atiradeiras de pedra dos palestinos. Poucos discordam que a guerra é uma prática humana horrível, no caso do Estado de Israel, não se trata de guerra, e sim, de um ato de genocídio devido o desequilíbrio de forças bélicas entre os dois lados.
No conflito na Faixa de Gaza inúmeros “Davis” são assassinados; essas mortes são veiculadas minimamente pela televisão, para não estimular a revolta popular no mundo, cabendo aos celulares com suas máquinas fotográficas digitais tornar público pela Internet imagens de corpos mutilados e mortos, driblando as censuras.
Diante disso ousaria dizer que os israelenses, refiro-me somente aos responsáveis pela matança, podem ser visto, nos dias de hoje, como os alemães nazistas de outros tempos, e o povo palestino como os judeus de outrora, numa triste reinvenção do episódio do holocausto.

[1] Stuart Hall (2005), A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro, 10ª. ed. Rio de Janeiro: DP&a, pp. 82 - 83.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O branco de esquerda racista é mais dissimulado do que o de direita

Lourenço Cardoso
(texto escrito em 2003 publicado In: http://www.apropucsp.org.br/jornal/jornal_343.htm)

O branco de esquerda adjetiva-se subversivo, revolucionário e acusa o branco de direita de conservador, reacionário. Esquerda e direita discordam na maioria dos itens, sobre relação “racial” (étnica) suas opiniões, análises e reflexões são semelhantes. Como se explica o consenso de opinião sobre ação afirmativa?
Como se explica o pacto entre esquerda e direita? A conformidade entre ex-ministro da educação Paulo Renato e do atual Cristóvão Buarque? Como se explica a avaliação semelhante do professor do ensino infantil ao universitário? Como se explica a unanimidade dos intelectuais? Unanimidade que apenas diz: sou contra e pouco propõe.
Edith Piza e Maria Aparecida da Silva Bento (2002) remete-nos a estas reflexões: O que é ser branco na sociedade brasileira? Qual papel que o branco ocupou ou ocupa numa situação de desigualdade racial no Brasil? (Cf. “Psicologia Social do Racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento”). Quando se trata de questão “racial”, esquerda ou direita, rico ou pobre, carioca ou paulistano, corintiano ou palmeirense, universitário ou analfabeto, mulher ou homem, heterossexual ou homossexual deixam suas divergências de lado e tornam-se apenas brancos. Refiro-me excepcionalmente ao branco brasileiro.
No combate ao racismo tanto o branco de esquerda, quanto o de direita são conservadores. Talvez seja esta uma das razões da indignação e gritaria com a universidade que adota a política de ação afirmativa. Política que a mídia diminui: “a cota para negro”, e instiga a sociedade “ser contra ou a favor”. Como se explica o consenso da mídia? O branco ler jornal, revista, site, assiste tele-jornal, ouve rádio e critica. Questiona a seriedade, valores, ideologia e profundidade dos autores e veículos. Estranhamente sobre este assunto absorve as informações e ingenuamente repete a frase: “cotas sou a favor”, “cotas sou contra”. Como se explica esta leitura superficial?
"Mas o que estaria por trás das críticas às propostas de políticas voltadas para negros? Para a doutora em psicologia social pela Universidade de São Paulo (USP) Maria Aparecida da Silva Bento há uma espécie de luta silenciosa pela manutenção de privilégios. ‘Há um pacto não verbalizado entre os brancos a partir do momento da discussão das cotas como se os negros estivessem querendo mexer com um privilégio que sempre foi deles.(...) Maria Aparecida (...) é autora de uma tese sobre “branquitude e poder”. Ela diz que a idéia das cotas levou muitos brancos a passarem a pensar na sua "racialidade" e a defender os direitos do "branco pobre" e não apenas do pobre. E aí, segundo ela, se juntam tanto o branco dos sindicatos quanto o das empresas, o da direita e o da esquerda". (O Estado de São Paulo ‘Geral’ Domingo, 16 de fevereiro de 2003)
Maria Aparecida Bento ratificou o que havia apontado. Quando se trata de defender os privilégios que se tem no Brasil por ser branco, une-se o branco de esquerda e direita. A situação é mais complexa, a respeito de relação “racial” o branco inovador pode tomar atitude conservadora do mesmo modo o conservador agir de maneira inovadora. Como se explica José Sarney ser autor de um projeto de lei que visa combater o racismo? Como se explica Marcos Maciel escrever a favor de políticas compensatórias voltadas para negros? No artigo “A questão étnica no Brasil”, publicado na “Folha de São Paulo” em 18 de novembro de 2000, o ex-vice-presidente escreveu:
"Vencer o preconceito que se generalizou e tornar evidente o débito de sucessivas gerações de brasileiros para com a herança da escravidão que se transformou em discriminação são apenas parte do desafio. Se vamos consegui-lo com o sistema de quotas compulsórias no mercado de trabalho e na universidade, como nos Estados Unidos, ou se vamos estabelecê-las também em relação à política, como acaba de fazer a lei eleitoral, com referências às mulheres, é uma incógnita que de antemão ninguém ousará responder".
O branco de direita não se aproxima do “negro militante”, negro que combate o racismo, quanto ao branco de esquerda ele vem com um “sorriso largo”, sempre acontece o que disse o “velho militante”: (...) quando um branco dava um sorriso para o negro, o negro tinha que aceitar aquilo como favor (...) é um dos preconceitos mais safados que pode haver. (...E disse o velho militante José Correia Leite p.21). Sobre questão “racial” o branco de direita é menos hipócrita, “mais safado” esta é a característica que podemos distinguir o branco de esquerda e direita.
Se o branco de direita pedir seu voto não será redundante na promessa que combaterá a desigualdade “racial” por defender a “democracia racial” evitará o tema. O branco de esquerda além de alardear o combate ao racismo criará núcleos em seus partidos para tratar desta questão, não dará importância necessária porque reduz o problema de relação entre negro e branco a “luta de classe”.
O branco de esquerda, além dos votos, insiste para que o negro entre em seus partidos, entidades, ONGs, associações para submeter o negro as suas idéias e direção. Eldridge Cleaver teorizou que o branco, simbolicamente, considera: “O negro como corpo e o branco como cérebro: o corpo deve ser submetido ao cérebro” (Alma no exílio p. 52-53). O branco procura submeter o negro, aceita que o negro vá longe “torne-se ministro”, jamais assumir o poder principal.
Entre branco racista de direita ou esquerda mais ou menos hipócrita os dois são deploráveis, compete-nos combatê-los. Sobre a participação do negro em partidos políticos de esquerda ou direita sustento a opinião do Correia Leite (1992, p.210): "(...) Eu sou contra se dividir politicamente. Agora, as pessoas podem participar de partido político, mas não dizendo que com isso vão resolver o problema do negro, quando estão divididos em um partido branco".
A branca Edith Piza (e outros estudiosos negros e brancos) que estuda relação “racial” problematizando o branco, chama-nos atenção que a discriminação “racial” não é um “problema do negro” e sim “problema de relação ‘racial’”, o branco é igualmente responsável. Se o branco, independente de sua classe, não lutar contra os privilégios que possui na sociedade brasileira, simplesmente por ser branco. Ele não estará contribuindo para construção de uma sociedade humana.

Ele evoluiu tanto a ponto de escrever a frase racista

Lourenço Cardoso
(texto escrito em 1999 publicado In: PUC-VIVA,
APROPUC-FAPUC, São Paulo)



“Negros, voltem para a selva, seus primatas”. Esta frase foi escrita, no banheiro da faculdade de Ciências Sociais por alguém que certamente está incomodado de ver tantos negros na PUC-SP. Quantos negros serão? Provavelmente menos de um por cento do total de alunos. É inegável que é muito pouco, estes poucos incomodam... Para os racistas é um absurdo negro estudando. Esta não é a função do negro, a sua função é “limpar o que o branco sujar”.
O professor Leonardo Trevisan, formado em história na USP, em seu livro Abolição um suave jogo Político? Desenvolve esse tema no capítulo chamado: “Por que ‘negra é’ a mão que faz a limpeza ?.” O geógrafo Milton Santos assegurou: “a universidade é o lugar para pensar”. Se for assim, o que os outros negros fazem lá? “Esses que teimam em não limpar”. Será que esses poucos negros estão indo estudar?
A universidade, segundo alguns professores universitários, “é o lugar da excelência”. Se a universidade é “o lugar da excelência para pensar”... entendo a preocupação do racista ao escrever: “Negros, voltem para a Selva, seus primatas”, racista cujo nome não citarei porque ele não assinou.
Ele ao escrever talvez estivesse querendo lecionar antropologia, talvez estivesse querendo dizer que existe a hipótese de que o homem saiu da floresta para a savana, e evoluiu... Talvez ele queira dizer que os negros saíram da floresta e não evoluíram... Talvez ele seja branco e queira dizer que os brancos, ao contrário dos negros, evoluíram. Talvez ele queira dizer que ele [branco] evoluiu tanto a ponto de escrever a frase racista.
Frase que para a maioria não tem a menor importância, é um ato de vandalismo, que me faz lembrar as frases semelhantes contra os judeus que resultou na morte de aproximadamente seis milhões de judeus. Fato que levou muitos a dizerem “pobre dos judeus”, e ninguém se lembra dos negros e nativos. Quantos morreram? 40 milhões... 400 milhões?...
Existem muitos pesquisadores brancos estudando o negro, “o negro é pertinente”, o negro é um “objeto de pesquisa excelente”. Esses brancos de tanto estudarem tornam-se autoridades no assunto, a ponto de dizer ao negro quando ele é vítima de racismo. Chico Buarque quando canta “Eu quero lhe dizer que a coisa aqui tá preta” na música Meu Caro Amigo (que compôs em parceria com Francis Hime) para alguns doutores não pratica racismo, afinal ele é “unanimidade nacional”.
Apesar de que, para os doutores, talvez não exista unanimidade para Nélson Rodrigues: “Toda a unanimidade é burra”. O mesmo Nélson que comentou com Abdias do Nascimento, na época em que escreveu Anjo Negro: “No Brasil o negro é pior tratado do que nos Estados Unidos” relatado em Anjo Pornográfico de Ruy Castro onde aparecem frases como esta (da página 393): “Por que Nélson ajudaria alguém acusado de ‘denegrir’ o Brasil no exterior? E ainda mais que esse ‘negrume’ se referia às torturas”. É preciso perguntar aos doutores se Ruy Castro foi racista nesta frase. Eles que se dedicam anos e têm como objeto de pesquisa o negro. Para o mercado os negros não são “seres humanos”, são consumidores. Para esses estudiosos brancos, o negro também não é um “ser humano” é “objeto de pesquisa”.
O sociólogo Florestan Fernandes (numa reportagem à Folha, em 20 de Agosto de 1995 a dez dias antes de sua morte) comentou a Integração do negro na sociedade de classes: “A integração... é o trabalho mais importante que fiz, tanto em termos empíricos quanto teóricos. O título já é dialético que fala de uma integração que não houve”. Um dos colaboradores do Florestan nesse livro foi o José Correia Leite, a quem Florestan prestou uma homenagem na Câmara dos deputados, em 20 de Março de 1989:
“José Correia Leite homem de origem humilde, batalhador, negro, que foi um dos pioneiros dos movimentos sociais que se organizaram em São Paulo para desmascarar a situação que viviam os negros”. - Acrescentou: “José Correia era modesto, mas realizou tarefa intelectual e política de um grande homem, aliás, de um grande homem em escala nacional[1]”.
No livro E disse o Velho Militante, do escritor Cuti, há uma frase de José Correia Leite que serve aos brancos que se julgam especialistas: “Não estou discutindo títulos e sim idéias”. O doutor imbeciliza-se quando afirma ao negro com a autoridade do seu título: “Isto não é racismo, você está com complexo de perseguição”.
Quanto à frase racista hipoteticamente arriscarei uma estatística. Vamos supor que: “ a cada ‘50’ brancos ‘3’ negros vejam a frase. Desses ‘50’ brancos, uns ‘2’ amigos de ‘preto’, não aprovem a frase e até comente com seu colega ‘preto’ que ele deveria tomar providência. Dos ‘3’ negros para ‘50’ brancos, se ‘1’ negro se indignar ao ler a frase racista, será um fato extraordinário...”
Pois o branco mandou o negro não se importar quando negam sua integridade humana. Não foi esta a ordem? Se a cada “3” negros ao lerem a frase racista somente “1” esporadicamente fica indignado, parece óbvio que a ordem é essa.
Os negros universitários decepcionam-me porque são muito obedientes aos brancos. Eles saem da periferia pagam uma, duas ou mais conduções, chegando na universidade não estranham o fato de praticamente não existirem negros. Eles ignoram Milton Santos para eles a universidade não é “lugar para pensar”, eles estão lá para ascender socialmente, para se integrar, para namorar e, “se deus quiser”, casar, assim seus filhos nascerão mais claros, e certamente terão uma vida melhor. Gil e Caetano na Música Haiti cantam: “Todos sabem como se tratam os pretos”.
Viver no ostracismo não dá, o melhor é se “integrar”, ouvir piadas racistas e rir, “pois o branco manda rir”. Eles repetem discursos: “Os negros que não chegam as universidades são preguiçosos”.
A Educafro - Educação e Cidadania para afro-descendentes e Carentes adaptou um documento que denominou: SETE ATOS OFICIAIS QUE DECRETARAM A MARGINALIZAÇÃO DO POVO NO BRASIL. Para se ter uma idéia cito apenas dois deles:
“O 2º Ato Oficial: Lei ‘Complementar à Constituição de 1824’ que impedia os negros de freqüentar escolas, pois eram considerados doentes de moléstias contagiosas e o ‘4º Ato Oficial, sobre a Guerra do Paraguai (1864 - 1870)’ que foi um dos instrumentos para reduzir a população negra do Brasil.”
Nem todos repetem esses discursos. Existem negros dedicados em estudar o negro. Esses negros ficam felizes quando aparece outro negro na universidade, se preocupam em despertar sua “consciência racial”, fazem amizade e logo profetizam: “você tem que ler os livros!”
O negro, feliz, querendo se informar diz: “Que ótimo! Empreste-me”. Esses negros recusam, temem que seu livro seja roubado, e pede para o “mano” tirar cópia, o “mano” não tem dinheiro. Esses negros universitários são “conscientes”, afinal lêem em excesso a ponto de esnobarem: “se você quiser falar comigo tem que ler”. Esses negros provavelmente não conversam com seus “manos” das periferias onde moram, sobrando-lhes os poucos negros universitários “conscientes”, e alguns brancos, que apesar de serem esmagadora maioria da universidade, poucos são os que lêem.

[1] Florestan Fernandes “Significado do Protesto Negro”

DOIS BROWNS

Lourenço Cardoso
Roberto C. Camargo
(texto escrito em 2001 publicado In: Pobre, Ano I, Edição 1, Setembro/Outubro, São Paulo, 2001, p. 11-16)

No início do ano dois fatos/acontecimentos chamaram-nos atenção.
Fato I: Mano Brown arrebentou no show de RAP realizado no Anhembi (13.01.2001), é óbvio, que outros rappers tiveram o mesmo desempenho. O Milennium RAP reuniu cerca de 40.000 pessoas oriundas das camadas pobres da população paulistana e paulista.
Podemos dizer que os pobres, moradores da periferia, deram seu recado, e muito bem, aos agentes dominantes, ao contrário, do que alguns, poderiam supor, o evento deu grande prova de organização e capacidade dos manos, em relação ao RAP, mostrou que não “devemos nada pra ninguém”.
Fato II: Pela tevê nos deparamos com uma cena grotesca, aterradora. Carlinhos Brown, cantor baiano, foi literalmente “atacado”, “agredido”, “insultado”, “humilhado”, pelos espectadores do grande festival de Rock, denominado pelos agentes promotores de “Rock in Rio III”.
Brasil, terra do samba, carnaval, e assim vai..., com este festival de Rock, mostrou sua verdadeira face: eurocêntrica, estadunidense. E por que não branca, racista, desrespeitosa, estúpida.
Carlinhos Brown, para quem não sabe, é negro, casado com a filha de Chico Buarque, soteropolitano, mais específico do Morro do Candeal Pequeno, em que realiza trabalhos comunitários, ponto em comum, com Racionais MC´S, Negritude Jr., e outros.
Vivemos dois mundos: “jardins e Capão Redondo”, tanto um, quanto outro, têm manos cabe-nos orgulharmos do que somos: negro brasileiro. Acabou-se a farsa de que somos um país “tolerante” e “democrático”.
Dois “neguinhos”, um do Capão, outro do Candeal, o primeiro simboliza a grande massa de negros, mestiços, nordestinos, toda a periferia deste país. O outro, apesar do trabalho comunitário, não inspira, não simboliza, LUTA. Trata-se do humano, de pele escura, que pensa aceito pelo humano de pele clara que se elegeu superior.
No Millenium RAP Mano Brown no show reclamou com os gringos que queriam invadir o palco por não agüentar a espera. O público em sua maioria, negra, negro, branca, branco, pobres preferiram os artistas, os músicos, brasileiros ao invés do estrangeiro.
No Rock in Rio III, rock estilo musical de origem preta, o público branco, branca, negro, negra, classe baixa, média, alta, não suportaram vê o preto, um dos ícones do estilo musical que a industrial cultural denominou Axé Music, porque estavam presentes para aclamar os gringos, esperavam Guns in Roses e Oasis.
Beth Carvalho madrinha de sambistas consagrados: Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão; e a revelação “Quinteto em Branco e Preto” disse em entrevista a Mauro Dias da Agência Estado (18.01.2001): “Esse grupo [Guns in Roses] deveria ser processado por racismo (...) Eles têm uma música chamada One in Million na qual falam que negro fede e tem que morrer. Isso é crime”.
O cruel que beira ao ridículo do ocorrido no Rock in Rio III, não se resume à frase racista: “Coitadinho do Carlinhos! Coitadinho do neguinho!”. E sim, ao fato de ele ter sido vaiado por brancas, brancos, negras, negros que esperavam para ovacionar uma banda estrangeira racista. Estas pessoas mostraram sua face de povo colonizado e de total alienação. Os peles pretas, peles claras, peles brasileiras de múltiplas tonalidades com complexo de inferioridade, não perceberam que vaiaram a si mesmos, por ignorar, por apenas querer consumir.
É como se neonazistas que matam homossexuais, pretas, pretos, nordestinas, nordestinos..., em praça pública, (exemplo do que aconteceu na Praça da República, S.P, que foi divulgado na mídia) fossem ao Congresso Internacional de Neonazistas na Alemanha. Os pobres, em especial, as pretas e os pretos, parece absurdo, mas existem neonazistas peles escuras filhos de metalúrgicos desempregados que são contra os nordestinos. Esses “menos brancos” pobres que são os mais dedicados, os mais preocupados em serem aceitos, (ser aceito preocupação de Machado de Assis, Alexandre Pires, Pelé, Ronaldinho, Carlinhos Brown, entre outros...) receberiam uma passagem gratuita, presente de grego, mas eles ficariam felizes.
Lá chegando no Congresso Internacional Neonazista com a foto do Hitler na camisa, com o livro “Minha Luta” na mão, e na outra com álbum de seres inferiores que mataram, os neonazistas puros, (temos dúvidas sobre pureza, mas se eles dizem que são puros, acreditamos) lhe fariam duas perguntas, é óbvio em alemão: Vocês são loucos? Quem traduziu o livro do Hitler?
Neonazista puro é de uma imbecilidade que só perde para neonazista latino, neonazista argentino, brasileiro. Imbecilidade semelhante à atitude das pessoas que vaiaram Carlinhos. Atitude imbecil porque reflete a falta de uma mínima compreensão individual e social.
Meio as vaias Carlinhos cantou o hino nacional, numa atitude: “Aceite-me, sou brasileiro como vocês!” Este artista, se esquece, que o negro jamais foi aceito no Brasil pois se não somos os “Estados Unidos”, devemos ao atraso que trouxe ao país os povos inferiores, e ainda preguiçosos, que vieram da África. É só comparar! Os italianos vieram depois e têm padaria, os japoneses um bairro. Quanto os peles pretas? Cidade Tiradentes, Capão Redondo... repletos de pobres, infestados de minas e manos que não são o povo de Carlinhos:

“Que sociedade? Ele (Negro) é que se transforma em excluído. Eu por exemplo, sou um homem miscigenado no Brasil e digo com alta firmeza: adoro pertencer à etnia da África, mas não queria nascer lá de jeito nenhum. Naquela miséria? Com Ebola, com gente morrendo de fome? Aquele é lugar pra mim? Não é. A África com toda sua fragilidade, aceitou ser colonizada, escravizada. Isso é coisa de um povo fraco. Isso não é o meu povo. Meu povo tem força, é rei. Sabe sobreviver do caos. Meu povo é o mesmo que construiu o Brasil, mas um que não se deixa engolir pelo Brasil” (Revista Raça Brasil Ano 1 Nº 1, Setembro, 1996, p. 12-3)

Este trecho da entrevista de Carlinhos indica sua postura política e seu pensamento em relação à sociedade brasileira, em especifico, aos seus semelhantes de pele preta, que lembra em alguns aspectos o que foi escrito por intelectuais e cientistas sociais brancos racistas: Euclides da Cunha, Oliveira Viana, Silvio Romero, Paulo Prado, Nina Rodrigues. Que diz cada com sua particularidade: “povo fraco preto, povo forte branco, povo inferior, povo superior”.
Carlinhos se difere da maioria dos brasileiros, conhece sua origem. Os povos de peles pretas devido à maneira que foi o tráfico de africanos para costa brasileira com a separação das famílias não conhecem seus povos originários. Carlinhos Brown conhece, “seu povo é rei”. Carlinhos assim como o público que o vaiou, é outro imbecil que iria ao Congresso Internacional Neonazista Alemão, aliás tem dinheiro para pagar a própria passagem. Sua atitude inconsciente, ignorante, de reproduzir intelectuais brancos racistas, indica que iria. Talvez até responderia as duas perguntas em alemão.
Mano Brown, ele povo, e, seu povo, é muito diferente do povo de Carlinhos Brown, aliás, Mano é oriundo do “povo fraco”, “povo pobre”, “povo periferia” que citou Carlinhos, sobre a música que produz, o RAP, Carlinhos tem a seguinte opinião: “Isso é (O RAP) a aceitação da miséria e o não saber reinar sobre ela.” (Revista “Raça Brasil” Ano 1 Nº 1, Setembro, 1996, p. 13).
Carlinhos Brown, outra vez, demonstra falta de informação em seu conceito sobre RAP, que é um estilo musical que faz parte do Movimento HIP HOP que se expressa também no break e grafite. Na tese de mestrado do Grilo[1], “No Ritmo do RAP: Música, Cotidiano e Sociabilidade Negra São Paulo 1980 – 1997”, está conceituado RAP gospel, RAP romântico, no entanto, o que mais se destaca no Brasil, é o RAP político, RAP de denúncia social, que é a essência do próprio Movimento HIP HOP, em outras palavras, diríamos que o caráter político e de entretenimento, é essência do Movimento HIP HOP como indica Kljay, falando especificamente sobre RAP:

“Todo segmento musical corre o risco de virar pop, comercial, e no RAP também vai ter isso, mas, acredito que o outro lado, o lado político é o mais forte do que esse comercial.” (revista “abayomi, arte, informação e cultura”, edição única, janeiro 2000, p. 13).

No caso do Axé Music, a essência é o lúdico que foi, e ainda é, explorado pela indústria cultural, “máquina de moer cultura”, que ambiciona ter em suas mãos o RAP, que segundo Ice Blue “é a música mais popular do momento”, devido ao sucesso que foi o Millenium RAP, que não teve praticamente nenhum patrocínio, diferente do Rock in Rio III, não restam dúvidas que o rapper tem razão.
Cabe ao Ice Blue, Edi Rock, Kl Jay e Mano Brown, explicar melhor, como será a relação com a Sony, pois os argumentos de Blue no Bate Papo da UOL (11.01.2001) não convenceram:

“Hoje eu não tenho mais 18 anos, nem 20, sou pai de quatro filhos. Não adianta ficar com ilusão. Têm várias camisetas piratas, discos piratas dos Racionais na rua. O Racionais hoje vende 1 milhão, 2 milhões de discos, e isso não dá pra ser distribuído por um selo independente. Estamos preocupados em cercar os caras que ganham dinheiro às nossas custas e atender o público mais rápido.”

Os argumentos do Ice Blue é típico de um empresário, de um capitalista. Os caras que Ice Blue, que neste caso representa os Racionais MC´S., ou seja, os caras que os Racionais MC´S “estão preocupado em cercar porque ganham dinheiro as suas custas” são pobres, vendedores de discos piratas, e para cercá-los associaram-se a Sony, empresa multinacional, atitude lógica, sensata, inteligente, do ponto de vista capitalista.
Inexorável do ponto de vista social, pois dificulta, impede (não totalmente) a divisão dos lucros do produto cultural colido na sociedade, com a própria sociedade, com pobres moradores da periferia cantada nas músicas dos Racionais MC´S e outros grupos e músicos. Esta lógica empresarial, levada às últimas conseqüências, (se fosse possível) transformaria a miséria em produto cultural que visa o lucro para duas empresas “Cosa Nostra” e “Sony”.
No “Vídeo Music Brasil 98”, na MTV, Carlinhos Brown foi o apresentador, os Racionais MC´S ganhou o principal prêmio, o encontro entre Carlinhos e Mano foi inevitável, não poderia ser diferente, devido à postura dos Browns, o encontro não foi amistoso. Enquanto Carlinhos teoriza sobre “povo preto brasileiro fraco”, herança dos escravos africanos que “deixaram ser escravizados” para Mano Brown a História é outra:

“(...) Muitas pessoas insistem em perguntar porque os afro-americanos conseguiram espaços em tantos setores da sociedade americana e os brasileiros não conseguiram muita coisa, além de Pelé e... Não sabemos com quem lutar, todos dizem que são nossos amigos. Nos Estados Unidos a arma é apontada pela frente, os brancos de lá são menos covardes. No Brasil a arma é apontada pelas costas. A segunda posição é mais cômoda para quem segura a arma e torna a defesa mais difícil para quem é o alvo.
Um exemplo simples: Ku Klux Klan – organização de extrema direita branca que agia no sul dos Estados Unidos atacando pessoas negras declaradamente; Grupos de Extermínio – os ‘pés-de-pato’, como são conhecidos aqui na zona sul de São Paulo e Rio de Janeiro, matando mais que KKK e o FBI juntos. Só que não é divulgado que a cada dez mortos, sete são negros; justiceiros grupos de extrema direita, formada por pessoas brancas, negras, pardas, policiais, bandidos, comerciantes (...)” (Trecho extraído do texto “Revolução” de Mano Brown, publicado originalmente na Revista Trip 38, republicada na edição Ano 12).

Quando Mano Brown escreveu “Revolução”, tinha 24 anos, três anos depois, cantaria: “Permaneço vivo, prossigo a mística! 27 anos, contrariando a estatística!” (versos da Música “Capítulo 4 Versículo 3”). Este texto, além de outros temas, oferece uma lúcida comparação entre o racismo brasileiro, e o estadunidense, o exemplo dado, que compara a Ku Klu Klan com os Pés-de-Pato é brilhante, pois além de denunciar extermínio de pobres, que “a cada dez, sete são negros” deixa evidente que no Brasil a organização dos negros é mais difícil porque o racista não se assume, “atira pelas costas”, age na calada da noite, razão a qual Suely Carneiro, filósofa, coordenadora do Geledés, diz: “no Brasil se produziu a forma mais perversa de racismo no mundo.” (Revista Caros Amigos ano III, Nº 35, fevereiro, 2000 p. 1)
É de estranhar, que Mano Brown, avesso à mídia, tenha concedido entrevista a Trip revista voltada a juventude classe média e alta, branca. A entrevista foi superficial, muito superficial se compararmos com sua entrevista na “Caros Amigos”, mesmo assim, não deixou de ser interessante, polêmica e tola. Não podemos deixar de ressaltar a tolice dita por Mano Brown ao responder a pergunta se a educação muda a realidade:

“Mesmo estudando, é 500 anos. Nossa geração não vai ver essa porra melhorar. Estão é perdendo tempo na escola. Dez, 12 anos na escola, está perdendo tempo. Camarada meu só tirava nove e dez. O máximo que ele conseguiu chegar foi a bancário. E agora está desempregado porque participou de greve nunca mais arranja emprego.”

Equívoco de Brown, tolice, o que disse não se sustenta, pois no sentido radical, no sentido profundo a escola é o lugar (formal) para busca do conhecimento, e não para busca do emprego, ou ascensão social, nunca se perde tempo em aprender, nunca se perde tempo com o conhecimento.
Muitos integrantes do Movimento HIP HOP, incluindo os Racionais MC´S, discursam que o povo deve se armar com informações. Conhecimento, informação não se encontra apenas nas ruas, encontra-se também nas academias, o fato de Mano Brown ter conseguido ascensão social como artista não quer dizer que todos conseguirão, se seguirem o mesmo caminho, ele é exemplo individual, assim como seu “camarada”.
A crítica as Instituições de Ensino, além de externas, convém serem feitas em seu interior. Os manos, as minas, as pretas, os pretos, o pobre é a subversão que as academias necessitam em suas entranhas para que possam superar sua mediocridade, em alguns aspectos, e deixar de ser uma ilha, habitada em sua maioria, por brancas e brancos, classe média e alta. Contudo, não podemos deixar de reconhecer que antes de aprender a pessoa tem que comer. Sem emprego para sobreviver às alternativas são indignas ou ilícitas.
Mesmo com suas contradições Mano Brown está muito distante de Carlinhos Brown. Mano é péssimo, machista (assim com os outros integrantes do grupo Racionais MC´S) quando se refere às mulheres; excelente, de rara sensibilidade, como: letrista, poeta, intérprete político.
As pretas, os pretos, pobres, moradores da periferia têm poucas referências brasileira, praticamente inexiste um negro de destaque que aborda questões raciais, com firmeza e coerência. Razão a qual faz com que Mano Brown se diferencie, disse Grilo numa conversa informal: “Mano Brown é uma espécie de Malcom X brasileiro”. É perceptível a influência de Malcom em Mano Brown, assim como no próprio Movimento HIP HOP.
Mano Brown que fez com que pobres comprassem a revista Trip; Mano que prestou depoimento ao preto que se tornou mestre[2]; Mano que prestou depoimento à branca que se tornou doutora[3]; Mano que quarenta mil minas e manos param para ouvi-lo. Como disseram a respeito de Malcom: “Muito poder para um homem”.
Nesse sentido a indústria cultural e a sociedade capitalista branca dizem: “Precisamos achar um jeito de lucrar com este poder”, e o pior, que os manos e as minas estão, de certo modo, acatando e dando as costas ao Movimento HIP HOP, exemplo: Pavilhão 9, “ex-banda de RAP.”
Em relação ao Carlinhos, suas contradições são inaceitáveis, quando diz: “povo africano fraco” está falando a respeito de si mesmo, sem saber, ao se referir às pretas e pretos, é como se olhasse no espelho e repetisse palavras que não são suas. Seu comentário sobre a platéia que o humilhou lhe cabe: “(...) Precisam aprender a entender o Brasil”[4].
Mano Brown já mostrou que não é preto quando lhe convém, quanto a Carlinhos Brown, temos dúvidas. Muitos pretos e pretas, uns até militantes do Movimento Negro, assumem-se negros quando podem tirar vantagem, aliás, militar é uma palavra infeliz, sugere “receber ordens sem pensar, sem questionar”; ativista..., Ativista Preto, preferimos. Mano Brown, mesmo com suas contradições e equívocos, além de rapper, é sem dúvida, dos pretos “populares”, o Ativista Negro mais coerente.

[1] Grilo, pseudônimo de Amailton Magno Azevedo, Músico, Mestre em História Social, PUC-SP.
[2] Mano Brown prestou depoimento para Grilo para sua tese de mestrado já citada.
[3] Mano Brown prestou depoimento para tese de doutorado de Maria Eduarda de Araújo Guimarães intitulada: “Do Samba ao RAP”
[4] “Isso não aconteceria na Bahia, afirma” reportagem de Israel do Vale e Pedro Alexandre Sanches, publicada na “Folha Ilustrada” em 15 de janeiro de 2001.

domingo, 15 de novembro de 2009

Racionais MC's versus preconceito da mídia

Lourenço Cardoso
(Texto escrito em 2002 publicado In: http://www.apropucsp.org.br/jornal/jornal_415.htm)

A matéria “Tem disco novo dos Racionais, tá ligado?” assinada por J.M no jornal Estado de S. Paulo, Caderno 2 (18/07/2002) que informa sobre lançamento do mais recente “disco” dos Racionais MC’S: Nada como um dia após o outro está enxurrada de comentários irônicos, desdenhosos e pejorativos. Em síntese, o jornalista sustenta que: o novo trabalho dos Racionais não tem profundidade, nada traz de novo, o único mérito que possui é de ser o melhor do gênero porque os outros rappers são péssimos[1].
J.M ofende e acusa os Racionais de ignorantes: “Esquizofrênicos, falam de coisas que não conhecem, disparam a torto e à direita” E mostra-se ignorante: “Em A Vítima, Mano Brown usa o rap com um sentido terapêutico, lembrando de um acidente que protagonizou na Marginal em 14 de outubro de 1994”.
Este jornalista erra quando coloca Mano Brown como protagonista do acidente na Marginal Pinheiros se tivesse lido seu concorrente não daria esta gafe:

" ‘A vítima’ - No disco essa é a faixa número 6, ela merece uma atenção especial, pois nela Edi Rock relata um acidente ocorrido há quase oito anos atrás. (...)’" (http://www2.uol.com.br/manuscrito/especiais/especial004.shtml)

J.M alimenta sua estupidez ao escrever sobre o que não conhece e compreende... Caro jornalista, antes de escrever faça uma pesquisa mínima! Não é o Mano Brown o protagonista envolvido no acidente, é o Edi Rock, Mano Brown estava em outro carro. Este jornalista ousa escrever sobre os Racionais; tece criticas e atesta não conhecer os componentes do grupo.
Outra tolice, de J.M foi ao comparar os Racionais com os personagens que aparecem no filme A Hora do Show: “[Racionais] Alternam pieguice com pregação da violência e muita confusão ideológica, como a daqueles militantes do filme Show Time, do Spike Lee, que seqüestram o sapateador para linchá-lo via satélite”.
Se fosse cuidadoso, não se concentrasse em escrachar... chegaria a concretude que os Racionais têm mais semelhanças com o Lee do que com uns dos seus personagens caricaturais, nesta obra de Lee a critica essencial é a respeito do negro estereotipado.
Ao ler as matérias dos veículos grandes de comunicação, ao ler “J.M’S” lemos jornalista que escreve, não jornalista que pensa, diferença substantiva. Basta de picarescos que falam a respeito do pobre com menosprezo, basta de covardes classe média e alta branca que esconde seu nojo, seus valores, suas ideologias. Para que não leiamos bufões (como J.M revelou-se ao escrever “Tem disco novo dos Racionais, tá ligado?”) os jornais, as revistas... deveria enviar o estúpido aos “Estudos Humanos”. Por infelicidade, não resolverá.
Há pessoas com complexos de superioridade, com ideologia de superioridade que se dedicam em estudar a humanidade para obterem maior bagagem para justificar suas práticas desumanas. Talvez o bufão poderia... ler mais..., observar a realidade; ou fazer qualquer coisa que o leve “parar de repetir slogans e pensar”[2].
Se formos rigorosos na leitura do “tá ligado?” encontraremos, além de falta de pesquisa mínima..., preconceito, ignorância, prática de racismo: “Chora agora abre com barulho de tiros e cachorro latindo, antecipando a trilha sonora de periferia braba”
Nesta minha afirmação, (com meu “cuspe na cara”, com meu manifesto, com meu texto panfletário???) talvez J.M também me compare aos personagens d’ A Hora do Show, sem saber se sou: branco, azul, lilás, vermelho, amarelo, escuro, preto, negro...
“Tá ligado?” é tão “claro!” J.M talvez seja Tipo Ideal: branco filho da classe média e alta que fala inglês e tem horror a dialetos periféricos: “[O disco dos Racionais] É um trabalho permeado de diálogos de brodagem entre manos da periferia”.
Talvez seja outro modelo: negro pobre que pensa ser classe média, Tipo: ...homem cordial, amigo do branco chefe da redação, neste caso, Frantz Fanon explica em Peles Negras Máscaras Brancas[3].
Quero mandar um salve para todos os doutores, poucos admitem que no RAP existem bons letristas, e esses, são unânimes em assegurar: “apesar de letristas, não são músicos”. Mantêm a “ideologia racista”. Quero mandar um salve para música clássica alemã. O pobre está impossibilitado de compor música. A impossibilidade é intelectual; temporal e geográfica.
Quero mandar um salve para o branco que adora “samba do crioulo doido”. O Movimento HIP HOP é o cachorro louco que não podem encoleirar. Quero mandar um salve para os veículos de comunicação que odeiam os Racionais, mesmo depreciativamente, são obrigados a divulgá-los.

[1] Este texto foi publicado anteriormente com outro título.
[2] Slogan de Milton Santos
[3] Frantz Fanon. “Pele Negra Máscaras Brancas” Rio de Janeiro, Fator, 1983.